10 anos
Martha Medeiros
A aventura de um textinho só, que era para ser filho único, deu no que deu: uma década de colunismo.
Não sou de me ligar em datas emblemáticas, mas reconheço que elas nos convidam a olhar para trás e fazer uma avaliação. Os 10 anos do Real, por exemplo. É a oportunidade de fazer um balanço, analisar em que espécie de país nos transformamos. Me lembro bem de julho de 1994. Eu voltava a morar no Brasil depois de uma curta temporada em Santiago do Chile, onde vivi oito meses com inflação controlada e moeda forte, algo até então inédito na minha vida. Foi um alivio saber que, ao retornar para casa, seguiria vivenciando a estabilidade monetária. Assim como em Santiago, eu encontraria os mesmos preços a cada ida ao supermercado. Minha vida não mudaria tanto.
Mas mudou. Julho de 1994 marca uma guinada que não estava nos meus planos. Eu, que até então tinha três livros de poemas editados e havia trabalhado apenas com publicidade, fui convidada a publicar um texto em Zero Hora. Um texto curtinho. Filho único, nada de me empolgar. Lembro que eu ainda nem havia desfeito as malas. Estava acampada com marido e filha na casa da minha mãe, era época de Copa do Mundo, o país fervendo, eu nem tinha esquematizado uma rotina pra mim, mas mandei o texto, que saiu no caderno Donna.
Na semana seguinte, o editor na época, Xico Reis, me pediu outro texto. Mandei. E na outra semana, mais um. Aos pouquinhos, foi-se criando uma regularidade, comecei a publicar todo domingo, cada vez num cantinho diferente do caderno. Enquanto o Roberto Baggio jogava a bola por cima do travessão do Taffarel, eu, com mais sorte, começava a marcar uns gols na minha nova função. Ganhei uma página. Virei colunista.
A publicidade não foi um tempo perdido na minha vida, a profissão me deu relações afetivas que cultivo até hoje e valei como aprendizado para escrever textos simples e comunicativos. Mas que estou mais feliz agora, nem se discute. Trabalho em casa. Publiquei outros livros. Ampliei meu mercado de atuação. Fiz um nome. E o mais importante de tudo: conquistei a credibilidade de um número expressivo de leitores e leitoras, pessoas que me estimulam diariamente com seus e-mails e seu carinho, que me levam a sério até mais do que eu mesma, que me adotaram como se fosse alguém da família – e não raro ficam furiosos comigo quando escrevo algo que lhes desagrada. Nestes 10 anos, me arrisquei em novos gêneros literários, tive textos adaptados para teatro e trabalhados em escolas, virei amiga de gente que eu admirava à distância, tudo isso praticamente sem sair de casa. É incrível como a escrita pode nos levar tão longe.
Esta crônica de hoje é pra comemorar com você estes 10 anos. Para lhe dizer muito obrigada por me ler e por ajudar a fazer com que aquela aventura de um textinho só, que era pra ser filho único, acabasse dando no que deu.
Domingo, 11 de julho de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.